segunda-feira, 9 de agosto de 2010

enfim, escrevo

querida,

escrevo-lhe com certo tardar, mas não exatamente tarde.
escrevo, até, de uma certa tarde que arde em nós.
Aqui, Barbara, tem ardido, sabia?
A vida arde, vc não acha?
Queima, por vezes.
E temos que, sabiamente, cuidar de nossas feridas-queimaduras, buscar alguma sombra, assentar um pouco.
Tive a impressão de que os dias passam e não me dou conta deles.
Escorrem por entre os dedos curtos, vazam por entre as frestas, mesmo que os tente agarrar - e ainda pior se o fizer.
Já notou uma certa inverossimilhança do tempo-espaço? Parece que quanto mais rápido nos movemos, menos tempo temos... e o tempo de paralisação, quão rápido ele passa...
Sabe, tenho tido uma certa crise histérica, acredito.
Insônia.
Insônia, para mim, cheira a histeria não trabalhada.
é uma forma de histeria, uma maneira histérica de não histeria - uma quase obsessão.
E, falando em obsessão, é outra a conotação que agora dou a esta palavra.
Estou obcecada. Obcecada pela vida. Por tudo que move e que pára.
Por parar e mover, seguir e estancar.
Por tudo que se arrasta, que se esfrega ao chão; que toca, que através de seu corpo, toca e move e vive e ama.
O que acha disso tudo?
Te revelo o contexto em que te escrevo:
dois dias de insônia,
me sinto meio flutuante durante as manhãs,
pela noite, uma certa hipersensibilidade da pele me traz uma insensatez irritante.
Tudo coça. tudo incomoda.
Meu pé roçando no meu outro pé, minha pela tocando o lençol...
o corpo é incômodo para mim.
Veste não escolhida na qual estou presa, apertada, transbordando.
Minha existência-corpo me chateia esses dias.
O que fazer com tanto corpo, Barbara? Você tem alguma ideia? Já pensou sobre isso alguma vez?
O que fazer com tanto sono mal localizado?


bem, deixo aqui contigo meus devaneios de hoje...

que saudade da gente!


Paula

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